Amamentar Nem Sempre É Uma Escolha

setembro 07, 2016


Durante toda a nossa vida habituámos-nos a ouvir que o leite da mãe é que é bom, que amamentar cria um laço muito grande entre a mãe e o bebé, que o bebé só deve beber leite materno exclusivamente até aos 6 meses. Isto é tudo muito muito bonito, mas esqueceram-se de nos dizer que amamentar nem sempre é uma escolha.

Eu não imaginava o que era amamentar



Sempre pensei que amamentar fosse algo super natural, que os bebés já nasciam com esse instinto e então que ia ser super fácil. O Mateus nasceu de madrugada, colocaram-no no meu peito para amamentar por volta das 2 e meia da madrugada. Ele chorou um pouco e custou a "pegar", mas a parteira deu uma ajudinha. Eu achei que era normal ele chorar e ter aquela dificuldade em pegar, afinal ele tinha acabado de nascer.

No dia seguinte (2 ou 3 horas depois), chegou a hora de mamar novamente e ele continuou a chorar e custava-lhe muito a "pegar" na mama. Desta vez a enfermeira era outra e então o meu peito foi tratado como massa de pão, amassado e esticado para todos os lados. O bebé era empurrado para o peito, para que mamasse, apesar de ele estar a chorar e estar a ficar roxo de tanto chorar! O Mateus custava-lhe a pegar na mama, ou seja, estava ali 5 ou 10 minutos para ele pegar, e depois tinha de estar sempre a "mexer"com ele para que ele não adormecesse. O máximo de tempo que ele mamava seguido era meia hora, mas segundo a pediatra isso não era problema, pois uns bebés precisam de 10 minutos para estar satisfeitos e outros de uma hora.

O Bebé tem de mamar 1 hora!

O Mateus perdeu cerca de 200g no primeiro dia, mas isso é algo que acontece com muitos bebés. Ele tinha momentos em que até pegava bem para mamar, e outros que chorava demasiado. Depois quando começava a mamar, mamava bem durante 15 a 30 minutos, mas tinha de estar sempre a mexer com ele para não adormecer. Tinha enfermeiras que me ajudavam muito e eram super queridas tanto para mim como para o bebé; e tinha outras que eram muito brutas e além de tratarem o meu peito como um pedaço de massa de pão pronto a amassar, obrigavam o bebé a mamar mesmo ele estando a chorar e a ficar roxo. Para algumas delas o bebé tinha de mamar meia-hora em cada mama e ponto final!

Falei com a pediatra sobre tudo o que se estava a passar e ela explicou que cada bebé tem o seu ritmo e hábitos. Um bebé pode precisar de 1 hora para estar satisfeito e outro bebé pode precisar apenas de 15 minutos. Se o bebé dormir as 3 horas seguidas, e sujar entre 5 a 8 fraldas por dia e passado 1 a 2 dias de nascer começar a ganhar peso então ele está a ser bem alimentado e não há necessidade de preocupar. E o Mateus estava a fazer isso tudo, por isso, eu não tinha de preocupar, ele estava bem alimentado.


Logo no primeiro dia comecei a ganhar gretas no peito, e mesmo colocando os bicos de silicone e pomada aquilo não melhorava muito, porque depois vinha a sessão de "tortura" por parte de algumas enfermeiras o que fazia com que as gretas só piorassem. Como sabem, depois do parto ficamos mais sensíveis, e então, eu acho que foi por causa disso que ainda aguentei algumas palavras e coisas que me diziam no hospital. Se fosse hoje ou antes do parto teria mandado tudo para onde nem o diabo gosta de estar!


Ficamos internados no hospital durante 6 longos dias (um dia destes conto-vos toda a história). Como disse anteriormente, no primeiro dia o Mateus perdeu 200g, no segundo perdeu 50g e no terceiro dia ganhou finalmente 25g. No final do terceiro dia uma enfermeiro chegou com um biberão (mamadeira) e disse-me que tinha de dar esse suplemento ao bebé e eu não percebi porquê e ninguém me explicou.

 No dia seguinte passou a ser suplemento sempre depois dele mamar, e ninguém me explicava o porquê. Ele adorava o biberão (mamadeira) , afinal não tinha de fazer esforço nenhum para mamar. Cada vez que tomava o suplemento, bolsava, algo que nunca tinha acontecido quando eu o amamentava. Com o suplemento chegaram também as cólicas que ele nunca tinha tido.

Home, Sweet Home

Quando finalmente vim para casa com o Mateus, achei que finalmente ia ficar tudo melhor, mas enganei-me. No dia que saí do hospital passei na farmácia para comprar uma bomba para tirar o leite, porque ainda tinha gretas e amamentar tornou-se algo muito doloroso. Além disso eu tinha passado basicamente 1 semana no hospital, onde além de muito stress, más noticias, só dormia em média 1 a 2 horas por dia. Estava exausta, completamente de rastos. Então a opção de tirar o leite com a bomba para depois o papá dar ao bebé parecia-me muito bem, afinal eu também merecia um pouco de descanso.

Com o passar dos dias as gretas foram se agravando, e nem com os bicos de silicone eu conseguia amamentar. Tentava tirar o leite com a bomba tira-leite mas era demasiado doloroso. Decidimos comprar uma lata de leite para ir intercalando com a amamentação para ver se as gretas melhoravam e se eu conseguia amamentar sem dor. Mas as coisas não estavam fáceis, ao invés de melhorar, as gretas estavam piores e como não conseguia amamentar, o leite começou a diminuir. Entretanto comecei a tomar um suplemento alimentar para aumentar a produção de leite, algo natural que não traz riscos para o bebé ou para a mãe. Tomei o suplemento e intercalei a amamentação com o leite de lata durante 2 meses.

As Opiniões

Quando visitei a família e amigos 15 dias depois de ter sido mãe (se fosse hoje teria esperado mais um tempo), começaram as perguntas sobre como eu estava, se ele nos deixava dormir e como estava a amamentação. Eu dizia que custava muito para ele mamar, porque ele chorava muito para começar a mamar e depois tinha de estar sempre acordá-lo enquanto ele mamava e passava 1 hora meia ali a tentar que ele mamasse. O que mais ouvia era "Eu amamentei 6 filhos, tens de amamentar", "Tens de dar de mamar mesmo que doa, apertas os dentes e dás de mamar","Secalhar o teu leite não presta".

Bem isto foi depois de ter tido uma semana infernal no hospital, de um turbilhão de emoções, de dores que nunca mais acabavam, isto foi a cereja no topo do bolo para acabar com a minha auto-estima.

A Decisão Difícil

Depois de 2 meses a tentar aguentar as dores, a produção de leite estava a baixar e o Mateus não se adaptava de forma nenhuma a mamar. O "simples" acto de amamentar era um inferno, um desespero e sofrimento para ambos. Chegou o dia em que decidimos que íamos dar uma pausa, ele ia tomar leite de lata e quando o peito estivesse bem voltávamos a tentar. Continuei a tomar o Promil para estimular a produção de leite, a fazer tudo o que me tinham ensinado para aumentar a produção de leite.

Depois de uns dias o peito estava melhor e decidi voltar a amamentar, e o sufoco era o mesmo. Uma hora e meia de choradeira, uma troca de posição constante, em que ele mamava apenas 10 minutos.
Tinha passado por tanta coisa desde que o Mateus nasceu, tanto stress, a infecção pós parto, o tratamento do pé boto, a recuperação a adaptação ao bebé e à nova vida, as cólicas, o sono e tantas outras coisas mais, eu já não aguentava mais. 

Estava a bater no fundo. Acho que a depressão pós-parto passou por perto.

Decidi colocar um ponto final. Eu queria amamentar, mas é suposto este ser um momento da vida feliz e não de sofrimento para mim e para o bebé. Fiz todas as tentativas possíveis para amamentar, mas não dava e nem eu, nem o Mateus éramos obrigados a sofrer. Depois de parar de amamentar, chorei durante mais de 2 meses, e dizia ao meu noivo que era má mãe, que não servia para mãe pois nem sequer conseguia amamentar o nosso filho.

O olhar de desprezo

Quando as pessoas me voltaram a perguntar se eu estava a amamentar eu simplesmente dizia que não, ele não conseguia mamar em condições e não pegava bem na mama e por isso bebia leite de lata. Os olhares que recebi, foram simplesmente de desprezo, como se fosse a pior mãe do mundo, como se tivesse cometido um crime. Reparei que por norma as pessoas apontam o dedo e julgam os outros mas não se lembram do que se passa na casa delas.

O leite de lata (leite artificial) tem nutrientes e tenta ser o melhor possível para os bebés, para que eles cresçam da melhor forma possível. Eu sempre sonhei amamentar o Mateus até aos 2 anos, mas não foi possível. Há pessoas que pensam que dar leite de lata é a escolha mais fácil, mas estão completamente erradas! 

Em primeiro lugar, o bebé bolsava muito o leite de lata, mesmo sendo o especial para não bolsar. Em segundo lugar, o Mateus nunca tinha tido cólicas quando mamava, e desde que começou o leite de lata começaram as malditas cólicas. Em terceiro lugar, nós gastamos cerca de 80€ todos os meses só em leite, cada lata custa 18€ por ser Anti-regurgitante.

Julga Menos, Apoia Mais

Podes não acreditar, mas as mães que, tal como eu não conseguiram amamentar durante o tempo que queriam, sentem-se frustradas por não conseguir dar o melhor aos filhos. Sentimo-nos desesperadas e psicologicamente abaladas por não conseguir fazer algo que supostamente é natural:amamentar.

Com este texto não quero que desistas logo na primeira dificuldade, porque é natural que nem todos os bebés consigam mamar bem, por isso tenta amamentar, usar a bomba eléctrica para tirar leite, cuidar muito bem do peito, colocando por exemplo uma boa pomada no peito e leite materno depois de cada mamada porque não faz mal aos bebés e faz super bem à pele. 


Se a produção de leite for pouca, pedes ao teu médico um suplemento, eu usei o Promil mas há mais no mercado. 

Em Portugal existem as CAM - Conselheiras em Aleitamento Materno, que ajudam as mamãs a conseguirem dar de mamar. Ensinam as melhores técnicas, e é algo gratuito que podemos pedir. Descobre mais aqui www.camsdeportugal.pt Infelizmente só soube das CAM depois de ter parado de amamentar. Se calhar uma CAM teria me ajudado muito...

Se depois de tentares tudo o que está ao teu alcance não resultar, pronto, não te culpabilizes e faz o melhor para o teu filho e para ti. O Mateus toma leite de lata desde os dois meses, desde os 4 meses que começou com sopa, fruta e depois papa e é um bebé super saudável e lindo!😍


É preciso consciencializar a sociedade que nem sempre é possível amamentar e podem existir mil e um motivos. Se a mãe tem alguma doença e toma certa medicação não pode amamentar; há mães que não produzem leite; há mães que tem o sistema imunitário fraco e não podem amamentar; há bebés que simplesmente não se habituam a mamar, entre muitos outros motivos.

Chega de julgar as mães. Ninguém se sente mais frustrada com essa situação do que nós, as mães!

Que tal se julgarem menos 🙊 e apoiarem mais? ❤️

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